Salvador: Escolas fortalecem debate antirracista com histórias

A música e as narrativas orais da tradição bantu transformaram o Colégio Estadual Clarice Santiago dos Santos, em Salvador, em um ambiente de memória e resistência. A atividade, liderada pelo contador de histórias Mário Sankofa e o músico Rick Carvalho, integrou a programação do “Maio Antirracista”. O evento busca promover reflexões sobre a luta do povo negro e a valorização da ancestralidade.

Memória e Identidade na Educação Antirracista

O Colégio Estadual Clarice Santiago dos Santos, situado no bairro do Arenoso, uma área histórica do antigo Quilombo do Beiru em Salvador, dedica o mês de maio a uma série de atividades pedagógicas focadas na Educação Antirracista. A iniciativa “Maio Antirracista” da unidade escolar visa aprofundar o entendimento sobre a herança africana e os desafios enfrentados pela população negra no Brasil. A programação inclui rodas de conversa, oficinas e palestras.

O objetivo principal é promover uma releitura crítica sobre o 13 de Maio, data da Abolição da Escravatura no Brasil. A proposta não se limita a celebrar a abolição, mas sim a destacar o protagonismo da população negra na conquista da liberdade. Além disso, a iniciativa fomenta o debate sobre temas cruciais para a sociedade contemporânea.

Entre os tópicos abordados estão:

Racismo estrutural: A compreensão de como o racismo se manifesta nas instituições e nas relações sociais.
Desigualdade social: A análise das disparidades socioeconômicas que afetam a população negra.
Identidade quilombola: O reconhecimento e a valorização das comunidades quilombolas e sua importância histórica e cultural.
Políticas de reparação social: A discussão sobre medidas necessárias para corrigir os impactos históricos da escravidão.

Marco César, diretor da unidade de ensino, ressaltou a relevância do evento. “O ‘Maio Antirracista’ proporciona aos estudantes uma reflexão aprofundada sobre o período pós-abolição”, afirmou. Ele destacou ainda que a iniciativa reforça o protagonismo negro na construção da sociedade brasileira. Toda a comunidade escolar se integra nesse processo formativo vital para o combate ao racismo.

O Legado da Oralidade Africana e Afro-Brasileira

A contação de histórias, uma arte milenar, desempenha um papel fundamental na preservação e transmissão de culturas. Mário Sankofa, o contador de histórias, enfatizou a importância da oralidade para as culturas africanas e afro-brasileiras. Ele compartilhou narrativas passadas de geração em geração pelos mestres da tradição oral. “Nada do que praticamos é inédito; reproduzimos a tradição de contar histórias, como ouvimos dos mais experientes”, destacou Sankofa. Essa prática ancestral serve como um elo vital entre o passado e o presente.

A oralidade, em muitas culturas africanas, é a principal forma de registrar a história, os valores e os conhecimentos de um povo. As histórias, canções, provérbios e mitos não são apenas entretenimento, mas veículos de sabedoria e moral. Eles ensinam sobre a vida em comunidade, a relação com a natureza e a importância da ancestralidade. Em um contexto de educação antirracista, resgatar essas narrativas significa dar voz a uma história que muitas vezes foi silenciada ou distorcida.

Acompanhando Mário Sankofa, o músico Rick Carvalho utilizou um instrumento ancestral para embalar as narrativas. A música, parte integrante das tradições africanas, cria uma atmosfera imersiva. Ela permite que os estudantes se conectem de forma mais profunda com as raízes culturais de seus antepassados. “Proporcionamos às crianças uma experiência que remete às nossas origens, especialmente em uma escola que realiza um trabalho tão significativo”, disse Carvalho. A combinação de narrativa e música transforma a sala de aula em um espaço de vivência cultural.

Impacto Pedagógico e o Protagonismo Estudantil

A repercussão da atividade transcendeu as expectativas, mobilizando educadores da escola. Eles reconheceram o impacto pedagógico profundo da ação na formação integral dos estudantes. Amilca Fernandes, professora do Atendimento Educacional Especializado, observou a importância da interação. “A interação com as crianças foi de extrema importância para fortalecer o pertencimento e ampliar conhecimentos sobre a ancestralidade”, avaliou.

A valorização do pertencimento é crucial para o desenvolvimento da identidade dos jovens. Ao se verem representados em histórias e culturas que lhes são próprias, os estudantes fortalecem sua autoestima. Eles adquirem uma compreensão mais sólida de quem são e de sua posição na sociedade. Isso contrasta com narrativas eurocêntricas que por vezes marginalizam a cultura africana e afro-brasileira no currículo tradicional.

Rita Bonfim, professora de Língua Portuguesa, acrescentou que a iniciativa fomenta o protagonismo. “Os alunos compreendem a relevância da identidade quilombola e desenvolvem protagonismo dentro e fora da escola”, afirmou. O reconhecimento da identidade quilombola, especialmente em uma área que abrigou um antigo quilombo, é fundamental. Ele empodera os estudantes a valorizar suas origens e a se tornarem agentes de mudança em suas comunidades.

Entre os estudantes, a experiência despertou um grande interesse por novas narrativas e diferentes perspectivas culturais. Maria Clara Duarte, aluna do 7º ano, expressou sua satisfação. Ela afirmou que a atividade trouxe uma vivência enriquecedora. “As narrativas africanas possuem profundidade especial e revelam aspectos do cotidiano que enriquecem a experiência do ouvinte”, relatou a estudante. A oportunidade de ouvir histórias fora do padrão tradicional ampliou seu horizonte cultural e sua capacidade crítica.

A iniciativa do Colégio Estadual Clarice Santiago dos Santos em Salvador demonstra como a educação pode ser uma ferramenta poderosa. Ao integrar a cultura africana e afro-brasileira no currículo, a escola não apenas combate o racismo. Ela também celebra a riqueza da diversidade cultural brasileira e forma cidadãos mais conscientes e engajados.

Perguntas Frequentes

O que é o “Maio Antirracista” no Colégio Clarice Santiago?
O “Maio Antirracista” é uma iniciativa do Colégio Estadual Clarice Santiago dos Santos, em Salvador, que promove reflexões sobre a luta do povo negro e a valorização da ancestralidade. Ao longo do mês de maio, a escola organiza rodas de conversa, oficinas e palestras com foco na Educação Antirracista, abordando temas como racismo estrutural e identidade quilombola.

Qual a importância da oralidade nas culturas africanas?
A oralidade é fundamental nas culturas africanas e afro-brasileiras para a preservação e transmissão de conhecimentos, valores e histórias entre gerações. Através de narrativas, músicas e provérbios, a tradição oral conecta o passado ao presente, ensinando sobre a identidade cultural e a sabedoria ancestral, como demonstrado pela apresentação de Mário Sankofa.

Como a contação de histórias impacta os estudantes?
A contação de histórias africanas impacta os estudantes ao fortalecer o sentimento de pertencimento e ampliar seus conhecimentos sobre a ancestralidade negra. A interação com as narrativas e a música ancestral ajuda os alunos a desenvolverem uma compreensão mais profunda de sua identidade e a se tornarem protagonistas na luta contra o racismo, como observado pelas professoras e pela aluna Maria Clara Duarte.


9 de maio de 2026|Fonte: SECOM GOV BA|Foto: Agência Voz Ativa|Redação: Bruno Sampaio|Fonte da Informação ↗

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Bruno Sampaio

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