Técnicos do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) acompanham a 137ª edição do Bembé do Mercado, em Santo Amaro, no Recôncavo Baiano. Este monitoramento e estudo são cruciais para a revalidação do bem cultural como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia, uma etapa que reafirma seu legado histórico e ancestral. A celebração, reconhecida pelo Estado desde 2012, já integra o Livro de Registro Especial dos Eventos e Celebrações.
O trabalho desenvolvido pelo IPAC é essencial para a política de salvaguarda dos bens culturais registrados. Ele busca compreender as transformações, permanências e formas de transmissão da celebração ao longo do tempo. Observa-se a continuidade histórica do Bembé do Mercado, as práticas de preservação e as medidas de salvaguarda que as comunidades envolvidas constroem.
A Importância da Revalidação e Salvaguarda Cultural
O processo de revalidação demonstra a vitalidade e a continuidade histórica de uma manifestação cultural. Segundo Marcelo Lemos Filho, diretor-geral do IPAC, na abertura oficial do evento em 13 de maio, essa ação permite evidenciar a força das tradições do Bembé. “Mesmo diante das transformações da sociedade ao longo do tempo, o Bembé permanece firme no propósito de preservar o legado de João de Obá, dos negros libertos e de toda a luta que marca essa manifestação cultural”, destacou Lemos Filho.
A antropóloga Ana Rita Machado, que pesquisa o Bembé do Mercado há quase 30 anos, observa uma significativa ampliação na visibilidade e reconhecimento da manifestação. Desde que iniciou seus estudos em 1997, a celebração expandiu sua dimensão. “Hoje, vemos uma dimensão muito maior de reconhecimento, preservação da memória e valorização da identidade de Santo Amaro e do Recôncavo baiano”, pontuou Machado.
Durante os festejos, a equipe do IPAC realiza um trabalho minucioso de coleta de dados. O material reunido é fundamental para subsidiar os estudos técnicos relacionados ao processo de revalidação patrimonial. Este trabalho inclui:
– Registros fotográficos e audiovisuais da manifestação;
– Documentação detalhada do evento, capturando suas nuances;
– Coleta de depoimentos de lideranças religiosas, representantes de terreiros, organizadores e participantes.
Bembé do Mercado: Legado de Resistência e Reconhecimento Nacional
Realizado tradicionalmente em 13 de maio, data que simboliza a abolição da escravidão no Brasil, o Bembé do Mercado surgiu em 1889 em Santo Amaro. Foi um ato público de celebração da liberdade do povo negro e de agradecimento aos orixás pelo fim de mais de três séculos de escravidão. A manifestação foi idealizada pelo babalorixá João de Obá, que levou os atabaques e os rituais do candomblé para as ruas da cidade em um período de intensa perseguição às religiões de matriz africana.
Para o ebomi Antonione Afonso, produtor executivo do Bembé do Mercado há cinco anos, o reconhecimento institucional é crucial para a preservação das tradições de matriz africana. “A parceria com o IPAC reafirma que o Estado reconhece o direito à cultura e a importância das manifestações de matriz africana enquanto legado para toda a população”, afirmou Afonso. Ele complementa que isso representa cidadania, acesso a direitos e fortalecimento das ações de salvaguarda desses bens culturais.
Além do reconhecimento pelo IPAC, o Bembé do Mercado recebeu do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) o título de Patrimônio Cultural do Brasil. Com isso, tornou-se a primeira celebração de matriz afro-brasileira inscrita no Livro de Registro das Celebrações, um marco histórico para a cultura nacional.
Considerado o maior candomblé de rua do mundo realizado de forma ininterrupta, o Bembé do Mercado é um vibrante ponto de encontro. Ele demonstra como os terreiros são grandes centros culturais, articulando religiosidade, música, dança, gastronomia, artesanato, economia criativa e afirmação de direitos. A celebração reúne um vasto leque de participantes:
– Mais de 40 terreiros de candomblé, representando as nações Ketu, Angola e Gêge;
– Lideranças religiosas e sambistas;
– Capoeiristas, artistas e pesquisadores;
– Comunidades tradicionais e visitantes de diversas regiões do país.
A Celebração Viva: Rituais e Simbolismo
A programação do Bembé do Mercado é rica em rituais e expressões culturais. Ela inclui xirê público, sambas de roda, cortejos e rituais dedicados aos orixás. O evento foi aberto, na quarta-feira (13), com uma alvorada às cinco da manhã, seguida da lavagem do busto de João de Obá, figura central na história da celebração.
Momentos marcantes da festa incluem o último xirê, ritual realizado em todas as noites do Bembé, no Largo do Mercado, às 20h. No domingo (17), ocorre a tradicional entrega dos presentes para Iemanjá e Oxum, com saída do Largo do Mercado para a Praia de Itapema, onde a cerimônia é encerrada.
Ao ocupar o Largo do Mercado com cânticos, danças e celebrações religiosas, João de Obá transformou o espaço em um símbolo de resistência e afirmação da cultura afro-brasileira. Mais de um século depois, o Bembé do Mercado continua reafirmando a força da ancestralidade, da memória e das tradições do povo negro no Brasil. Sua revalidação como patrimônio cultural imaterial garante que esse legado será transmitido às futuras gerações, perpetuando sua relevância social e histórica.
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Perguntas Frequentes
O que é o Bembé do Mercado?
O Bembé do Mercado é uma tradicional celebração de matriz africana que ocorre anualmente em Santo Amaro, na Bahia. Criado em 1889 por João de Obá, ele marca a abolição da escravidão e agradece aos orixás, sendo considerado o maior candomblé de rua do mundo realizado de forma ininterrupta.
Qual a importância da revalidação do Bembé do Mercado pelo IPAC?
A revalidação é um processo de monitoramento e estudo pelo IPAC que busca garantir a continuidade histórica e a preservação do Bembé do Mercado como Patrimônio Cultural Imaterial da Bahia. Ela assegura que as tradições, transformações e medidas de salvaguarda sejam acompanhadas e fortalecidas, reconhecendo seu valor para a cultura baiana e brasileira.
Quando e como surgiu o Bembé do Mercado?
O Bembé do Mercado surgiu em 13 de maio de 1889, em Santo Amaro, como um ato público de celebração da liberdade do povo negro e de agradecimento aos orixás pelo fim da escravidão. Foi criado pelo babalorixá João de Obá, que levou os rituais do candomblé para as ruas, desafiando a perseguição religiosa da época.
